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Desde a minha casa até ao local onde trabalho a distância é de 60 quilómetros. Acordo às seis da manhã preparo-me, tomo banho, tomo o ónibus e tomo o café, às vezes! Logo à chegada, às 7;45, na porta do edifício da repartição e numa distância que envolve o quarteirão que vai da esquina dos CTT, vira à direita, circunda, e atinge quase o ponto de partida um pouco mais atrás onde se instala uma farmácia, o número de brasileiros em fila chega atingir quinhentas pessoas!!
Vou-me abeirando da porta e não posso deixar de dar um bom dia fingindo entusiasmo mas engolindo revolta.
Crianças chorando, no colo da mãe, em carrinhos, em pé, mulheres grávidas, velhos, enfim, tudo ultrajante.
Vou perguntando desde que horas ali permanecem e fico abismado como pode isto acontecer: duas da manhã!!!
Na medida do possível vou dando uma prozinha fingindo normal. Cativo as atenções e ouço comentários…
Respondo que tudo está se fazendo para tudo melhorar e algumas vozes me arrebentam com o queixume de que isso seria um milagre e tentam desmentir minha justificativa acertando-me em falso quando desabafam:- vocês como estão lá dentro no bem bom, comodamente instalados, bem pagos, com o dinheiro de todos nós, nem por sombras imaginam o que é passar por isto!
Fico calado, sem argumento, porque eles não IRIAM ENTENDER.
Entender porque eu me sento numa cadeira ajustável, quebrada em riscos da minha queda; às vezes falta água, papel higiénico, e a geladeira, desde há dias que está sem porta, literalmente sem porta; não possuo mesa secretária, nem cadeira decente para me sentar, nem lugar certo onde eu diga: aqui está a minha mesa, a minha cadeira, a minha caneta, enfim o material normal de trabalho. Os agrafadores são velhos e quebrados e temos que roubá-los uns aos outros para suprir a necessidade de cada momento. E outras misérias mais... e, imaginem, o Verão está findando e os técnicos do ar condicionado não deteteram a avaria no sistema verificada no ano passado.
No interior da repartição certos gabinetes parecem dependências da polícia de bairro, mas da polícia que já nem existe!
Que saudades eu tenho de Angola!
Manoel Carlos
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSun,
ResponderExcluirObrigado pelas suas visitas. Referi Angola,só para dizer que embora sendo África, tem coisas muito mais civilizadas e organizadas que certos países já devidamente inseridos no "contexto" civilizado...
Ali vivi os melhores dias da MINHA VIDA
Percebera, Manoel Carlos, não precisava explicar. Tenho andado muito por este blogue para já saber isso. Mas obrigada de toda a maneira.
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